A vida de Auguste Comte: Capítulo final – “Habitando um túmulo antecipado” | por Henri Gouhier

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Sobre as orações de Comte – algumas observações introdutórias

O quadro esboçado por Henri Gouhier – exposto com fortes doses de ironia, a título de “crítica” – apresenta um painel intenso e bonito de alguns aspectos da vida cotidiana de A. Comte, que sem dúvida alguma produz fortes impressões no leitor. Mas, além da narrativa em si, que é bastante pungente, é possível extrair algumas reflexões adicionais, mais amplas, que dizem respeito ao Positivismo de modo geral.

O trecho abaixo apresenta dois ou três aspectos da vida de Augusto Comte que, à primeira vista, são surpreendentes: a existência de seus cultos íntimos, sua variedade e sua regularidade. Por que seriam surpreendentes? Porque, de modo geral, a palavra “positivismo” evoca imagens de “cientificismo”, de frieza e distanciamento emocional, de naturalismo e de negação das características humanas do ser humano; nesse sentido, os cultos íntimos poderiam ser vistos como incoerentes.

Para entender esses cultos é necessário deixar de lado esse senso comum – que é também um senso comum acadêmico – e conhecer com um pouco de detalhe a vida e a obra de Comte. Com isso, como o próprio Comte afirmou, percebe-se que o “Positivismo” é uma filosofia e uma política, resumidas na Religião da Humanidade: religião humanista, sem deuses mas com um ser superior histórico e imanente, que sem dúvida adota o conhecimento científico como instrumento para a compreensão da realidade, mas que erige os (bons) sentimentos como base e como objetivo da vida.

Uma religião tem seus ritos; esses ritos estabelecem os ritmos da vida, dão sentido à existência, celebram os valores morais e permitem que os indivíduos compartilhem sentimentos; além disso, os ritos podem ser individuais ou coletivos. Não há nada nos ritos em si mesmos que os obrigue a serem sobrenaturais; de modo mais amplo, conceber que a religião, como veículo de fraternidade, é sempre e necessariamente teológica, é um equívoco de enormes proporções, ainda que seja comum.

Refletindo o intenso relacionamento platônico que Augusto Comte manteve durante um ano com Clotilde de Vaux – o último da trágica vida dessa moça –, os cultos íntimos de Comte ilustram com clareza o quanto o amor pode renovar e orientar a vida dos seres humanos em direção ao altruísmo; nesse sentido, o próprio Comte ilustra o quanto é possível a Religião da Humanidade.

Em seu interessante estudo sobre Comte, o antropólogo francês Laurent Fedi indica como várias práticas cultuais contemporâneas aproximam-se dos ritos praticados e sugeridos por A. Comte – por exemplo, o fetichismo praticado em relação aos objetos que pertenceram às vítimas do Holocausto.

O trecho abaixo foi extraído da biografia de Augusto Comte escrita por Henri Gouhier em 1931, intitulada La vie d’Auguste Comte; além desse livrinho, Gouhier publicou um extenso estudo intelectual-biográfico intitulado La jeunesse d’Auguste Comte et la formation du positivisme, entre 1933 e 1936, a respeito dos anos iniciais de Comte e do Positivismo. Por outro lado, Comte indicou no Catecismo positivista (de 1852) e no volume IV do Sistema de política positiva (de 1854) qual o caráter da oração positivista e dos vários ritos públicos e privados.

Rémy Bourdeau tirou as fotos que ainda capturam esse espírito.

Gustavo Biscaia de Lacerda

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Capítulo final –
“Habitando um túmulo antecipado”

O dia inicia-se com a oração matinal, que dura das 5 h 30 às 6 h 30.

A primeira parte é uma comemoração de 40 minutos, ajoelhado defronte ao altar. Comte evoca os quadros do ano sem par próprios ao dia que ele santifica; assim, na segunda-feira, ele revê a visita que lhe fez Clotilde na segunda-feira, 2 de junho, e as duas cenas no ambiente da rua Pavée, ligadas às segundas-feiras, 30 de junho e 25 de outubro; há 31 imagens normais e 21 imagens excepcionais repartidas ao longo da semana. Após essa comemoração especial, ele passa a uma comemoração geral, caminho pio de seu amor em 11 estações; ele revê as grandes horas de sua viagem ao recitar as passagens correspondentes de suas cartas; no início da meditação surge a alegre saudação de Clotilde entrando na rua Monsieur-le-Prince, em 2 de junho; cada um dos 11 meses seguintes marca uma etapa de sua aproximação, depois da estima até à união definitiva que triunfa sobre a morte…

A segunda parte é uma efusão de 20 minutos. Ela começa com uma ação de graças, cinco minutos ajoelhado defronte a um ramalhete de flores artificiais, obra e presente de sua amada! Ele agradece-lhe por purificar sua vida e uma estrofe de Calderón [de la Barca] murcha aquele que se prostra ante sua maior lembrança. De pé próximo ao altar, durante dez minutos, ele celebra a Clotilde inspiradora da nova religião, em seguida a Clotilde melhor personificação do Grande Ser; ele assim é conduzido a recitar o Credo positivista, antes de murmurar a doce litania de adeus:

Addio, sorella! Addio, cara figlia! Addio, casta sposa! Addio, sancta madre! Vergine-madre, figlia del tuo figlio, Addio! [Adeus, irmã! Adeus, cara filha! Adeus, casta esposa! Adeus, santa mãe! Virgem mãe, filha de teu filho, adeus!]

Uma conclusão de cinco minutos termina a efusão. Ele enrola a capa de sua poltrona verde e, ajoelhado defronte ao altar recoberto, esquece a anarquia da transição contemporânea; sua vista estende-se até esse mundo normal em que seu nome será abençoado. Ele contempla sua verdadeira família, objetiva e subjetiva, reunida em Montpellier com seus principais discípulos no domingo, 4 de setembro de 1870. Mas Clotilde, Rosália e Sofia destacam-se da imagem. Uma outra visão surge: a bandeira coletiva do Ocidente regenerado inclina-se em frente ao túmulo ideal em que o Grande Padre repousa em meio aos seus três anjos.

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“Possa eu amar-te mais que a mim mesmo e não amar a mim senão em virtude de ti!”, Comte repete três vezes o sublime voto da alma ao Salvador: por sua eterna companheira, pela Humanidade e pela sua eterna companheira personificando a Humanidade. A encarnação do Grande Ser é a verdade que une o amor e a filosofia na mesma elevação; aqui, Clotilde não é mais adorada como eterna companheira e como esposa, mas como nobre patrona e mãe da segunda vida; também a derradeira invocação liga-se sempre à palavra da Imitação [de Cristo, de Tomás de Kempis], no título que Dante [Alighieri] ofereceu a Maria: “Virgem Mãe, filha de teu filho”.

Vergine-madre, figlia del tuo figlio, amem te plus quam me, nec me nisi propter te [Virgem Mãe, filha de teu filho, que eu ame-te mais que a mim mesmo e a mim somente por ti].

Às 10 h 30 ele recomeça. A oração do meio do dia é a mais curta. A comemoração, de dez minutos, tem como principal exercício a leitura da última, depois da primeira carta de Clotilde. A efusão é somente de sete minutos: Comte recita, ajoelhado, versos de Dante; em seguida, sentado, dois sonetos de Petrarca. Uma conclusão de três minutos retoma as invocações finais da manhã, enquadrando sete máximas memoráveis da santa patronesse.

A oração da noite começa quando o filósofo deita-se em sua cama. Uma comemoração de dez minutos evoca o martírio da inocente vítima; mas, em sua efusão de 15 minutos, ele reconhece que, mesmo magoado, seu amor foi o bem soberano de sua vida: enquanto ele bendiz um destino que, ao conduzi-lo a Clotilde, superou tudo que ele podia esperar e mesmo sonhar. Até esse momento, ele está sobre seu assento. Ele deita-se e durante os cinco minutos da conclusão, os temas que cantam o reino do coração embalam seus últimos pensamentos.

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Um dia, Clotilde apareceu, repousando sobre sua cama, toda branca, os olhos inundados de amor. Foi um pouco após o fatal domingo. Comte lançou-se de joelhos, pedindo a força para viver àquela que morria perante si pela segunda vez. Ele ergueu-se mais calmo, menos só. Foi então, sem dúvida, que sua oração recebeu a forma de um drama: doravante, sua extraordinária memória compôs as cenas com uma tal precisão que as coisas ressuscitadas pediam a companhia de seu silêncio.

As únicas saídas regulares são a peregrinação da quarta-feira ao [cemitério] Père-Lachaise e, a partir de novembro de 1854, a do domingo à [igreja de] São Paulo. Enquanto há um livro sendo escrito, ele não separa as duas visitas e pára na igreja ao retornar do cemitério. Ele ora uma meia hora na capela contígüa ao batistério onde foi celebrado seu casamento espiritual. Após depositar um óbolo no tronco, ele retorna ao único lugar da Terra em que se sente feliz: lá, Sofia atende-o; ela toma-lhe o chapéu, as luvas e o capote negro; ela entrega-lhe seu robe verde ou, no verão, um casaco negro de tecido fino; em seguida ele enclausura-se entre “as santas muralhas para sempre marcadas pela imagem adorada”.

A moral e a higiene impõem-lhe uma regra de vida monástica. Ele levanta-se às 5 h e deita-se às 21 h. De manhã, às 10 h, ele come 60 g de pão e uma tigela de leite, frio no verão, quente no inverno, contendo 60 g de açúcar. Ele janta à noite, às 18 h, com 100 g redondas de carne e um prato de legumes que absolutamente não pesa. Ele substitui a sobremesa por uma porção de pão seco comido enquanto pensa nos infelizes que têm fome. Uma vez por mês, no dia de folga de Sofia, ele faz uma “janta excepcional” em um restaurante da rua de l’Ancienne-Comédie.

A oração, a sociedade dos grandes poetas do Ocidente, os diversos deveres de seu ministério aprisionam-no em um sonho sem portas nem janelas. Ele lê cada dia um capítulo d’A imitação e um canto da Divina comédia [de Dante Alighieri]. Os sacramentos ainda não são muito solicitados, mas a direção de consciência é um grave ofício em uma Igreja que procura as almas de elite. “Exorto-o a consultar mais freqüentemente seu chefe espiritual, ele escreveu a um discípulo, quando sentir a necessidade de apoio, de direção ou mesmo de confidência”. Pai comum da família positivista, ele tem direitos sobre seus filhos; ele dispõe, não sem imaginação, de seu porvir, atribuindo-se o privilégio recentemente divino de conhecer o segredo dos corações. A quinta-feira é sempre reservada para a correspondência e para os visitantes que não podem beneficiar-se das recepções noturnas. Augusto Comte escreve cada semana longas cartas que ele compara às próprias epístolas de São Paulo.

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Agradecimentos

Henri Gouhier, 1931. La vie d’Auguste Comte. Paris: Vrin, 1997, cap. 2, p. 257-260.
Traduzido por Gustavo Biscaia de Lacerda, com a gentil autorização do editor.
Fotos de salas privadas de Comte por Rémy Bourdeau

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